Cada vez mais tentamos resistir às variadas formas de preconceito, de intolerância, resultantes da ignorância ou da manipulação ideológica. Exemplo disso, é o preconceito linguístico, comum na sociedade brasileira, que é constante em programas de televisão e de rádio, colunas de jornal e revista, em livros e manuais que ditam o “certo” e o “errado”, bem como em instrumentos tradicionais de ensino da língua, como as gramáticas normativas e alguns livros didáticos.
As gramáticas normativas apresentam um conjunto de regras, relativamente explícito e coerente, que deve ser seguido quando surge a necessidade do emprego da norma padrão, como se encontra nos textos jornalísticos, acadêmicos e em boa parte dos livros publicados no país. Por isso, essa variedade padrão é ensinada na escola, já que é uma ferramenta essencial para o conhecimento e para o acesso de informações fundamentais para a vida de qualquer pessoa.
No entanto, apesar da importância de conhecer as regras de funcionamento da gramática normativa, os falantes que a utilizam podem incorrer no preconceito de que existe uma única maneira certa de falar a língua portuguesa, como estampada na gramática prescritiva. Essa ideia faz parte do que é denominado de preconceito linguístico, termo popularizado pelo professor Marcos Bagno (2009), na década de 1990, que define qualquer juízo de valor que estigmatiza direta ou indiretamente as pessoas que não dominam formas linguísticas consideradas certas por uma dada comunidade.
O preconceito linguístico, portanto, é velado. Em tese, as gramáticas se baseiam num modo peculiar de atividade linguística: a escrita de um grupo seleto de cidadãos que fizeram uso das variantes prestigiadas. Em outras palavras, a sociedade elege, às vezes de maneira arbitrária ou baseada no que ela convencionou chamar elegante, uma variante linguística como padrão, para, em seguida, considerar errado e inferior todo e qualquer falante que não siga determinada variação.

Língua x Gramática normativa
Para a Linguística, só existe língua se existir seres humanos que a falem. Aristóteles afirma que o ser humano é um animal político, então, tratar sobre língua é tratar de um tema político. O preconceito linguístico, por sua vez, está relacionado a uma confusão entre língua e gramática normativa.
A língua pode ser exemplificada como um grande rio caldoso, longo e largo, que nunca se detém em seu curso, e a gramática normativa é apenas uma grande poça de água estagnada às margens de um rio. Enquanto a água do rio/língua se movimenta e se renova, incessantemente, a água da poça/gramática normativa envelhece e só se renova quando vir uma próxima chuva ou cheia.
Além disso, existe uma distância muito grande entre o “português” que as gramáticas normativas impõem como uso único e exclusivo da língua, referindo-se a um modelo idealizado de língua “certa”, e os variados modos de falar que encontramos na atividade linguística (fala, escrita) real, tanto dos cidadãos urbanos, letrados, que gozam de prestígio social, quanto dos cidadãos pobres, com nenhuma ou pouca escolarização de qualidade e sem reconhecimento social. Ou seja, por mais “correta” que seja a sua fala, ela ainda não se aproximará da norma padrão prescrita pela gramática normativa tradicional.
Nesse sentido, a nossa realidade sociolinguística deve ser vista sob três focos, segundo Marcos Bagno (2011):
- o da norma-padrão: modelo idealizado de língua “certa” descrito e prescrito pela tradição gramatical normativa – que não corresponde a nenhuma variedade autêntica e, tampouco, à escrita mais monitorada;
- o do conjunto das variedades prestigiadas: fala de cidadãos de maior poder aquisitivo, de maior nível de escolarização e de maior prestígio sociocultural;
- o do conjunto de variedades estigmatizadas: fala da imensa maioria da nossa população, seja nas zonas rurais, seja nas periferias e zonas degradadas das nossas cidades, onde vivem os brasileiros mais pobres, com menor acesso à escolarização de qualidade, desprovidos de muitos de seus direitos mais elementares.
Com isso, o autor deixa claro que a norma-padrão não faz parte da língua, isto é, não é uma maneira de falar autêntica, não é uma variedade do português brasileiro contemporâneo. Ela só aparece em textos escritos com alto monitoramento estilístico,nos quais já é bastante significativa a presença das inovações linguísticas próprias da verdadeira língua dos brasileiros.
Exemplo disso é o uso do imperativo negativo da segunda pessoa do singular (tu): não comas, não peças, não digas, que, mesmo em lugares como o Pará e o Maranhão, onde o pronome tu é empregado com a morfologia clássica em outros tempos e modos (falas, falaste, falasses), o imperativo negativo se faz como “não fala”, “não come”, “não pede” ou como “não fale”, não coma”, “não peça”. Ninguém, portanto, segundo Bagno, na fala normal e espontânea, usa a forma prevista pela norma-padrão.
Então, por que inferiorizar, estigmatizar, desprestigiar, marginalizar, deslegitimar ou ridicularizar as diversas variações que há no país daqueles que falam de um jeito que você, do alto do seu pedestal idealizador, considera “errado”, sendo que nem você detém o correto? Por que compactuar com o preconceito linguístico, sendo que com essa intolerância você só salientará as diferenças sociais que há entre você e o outro?
Ainda é preciso mudar muitas coisas para que a língua seja tratada de maneira adequada pelos professores, pelas escolas e pelas mídias, mas a prática da reflexão linguística é importante para a formação intelectual do cidadão. O preconceito linguístico não acabará de uma hora para outra, isso acontecerá apenas quando houver uma transformação radical do tipo de sociedade em que estamos inseridos, pois uma sociedade que discrimina tudo o que é diferente, exclui a maioria em benefício de uma pequena minoria, permite mecanismos de controle, dominação e marginalização.
Como subverter o preconceito linguístico?
Além da busca por informações, a crítica ativa da nossa prática diária e a mudança de mentalidade, é interessante:
- Conscientizar de que todo falante nativo de uma língua é um usuário competente dessa língua, por isso, ele SABE utilizá-la.
- Aceitar a ideia de que não existe erro de português. Existem diferenças de uso ou alternativas de uso em relação à regra única proposta pela gramática normativa.
- Não confundir “erro” de português com simples erro de ortografia. A ortografia é artificial, ao contrário da língua, que é natural. A ortografia é uma decisão política, imposta por decreto, por isso ela pode mudar, e muda, de uma época para outra.
- Reconhecer que os “erros” descritos pela Gramática Tradicional é na verdade um fenômeno que tem uma explicação científica perfeitamente demonstrável. Se milhões de pessoas (cultas, inclusive) optam por um uso diferente da regra prescrita é porque há uma regra nova sobrepondo-se à antiga. Assim, o problema está com a regra tradicional, e não com as pessoas, falantes nativos e perfeitamente competentes de sua língua.
- Conscientizar-se de que toda língua muda e varia. O que hoje é “certo”, um dia já foi “erro”. O que hoje é “erro”, amanhã pode ser considerado como “certo”.
- Dar-se conta de que a língua portuguesa não vai nem bem, nem mal. Ela só vai. Segue seu rumo, prossegue sua evolução, em sua transformação, que não pode ser detida (a não ser com a eliminação física de todos os falantes).
- Respeitar a variedade linguística de toda e qualquer pessoa, pois isso equivale a respeitar a integridade física e espiritual dessa pessoa como ser humano.
- Entender que a língua permeia tudo e nos constitui enquanto seremos humanos. Nós somos a língua que falamos. A língua que falamos molda nosso modo de ver o mundo e nosso modo de ver o mundo molda a língua que falamos.
- Considerar o conhecimento intuitivo do outro, valorizar o que ele sabe do mundo, da vida e reconhecer na língua que ele fala a sua própria identidade como ser humano. É preciso acrescentar e não suprimir, elevar e não rebaixar a autoestima do indivíduo.
São algumas maneiras de lidar com esse tipo de preconceito.
Adequações!
Quando falamos (ou escrevemos), tendemos a nos adequar à situação de uso da língua em que nos encontramos: se é uma situação formal, tentaremos usar uma linguagem formal; se é uma situação descontraída, uma linguagem descontraída, se é uma atividade voltada para os jovens, uma linguagem jovial, e assim por diante. Essa tentativa de adequação se baseia no que consideramos como um grau de aceitabilidade do que estamos dizendo por parte do nosso interlocutor(es).
É inadequado, por exemplo, fazer uma palestra num congresso científico usando gíria, expressões marcadamente regionais, palavrões, pois a plateia dificilmente aceitará isso, até porque ela poderá não compreender o que se está sendo dito, optando-se por uma padronização (o que é diferente de ser pedante, ou verborrágico) na fala. É claro que se a intencionalidade do falante for chocar seus ouvintes essa linguagem será adequada… Não é adequado que um agrônomo se dirija a um lavrador analfabeto usando uma terminologia altamente técnica e especializada, a menos que queira não ser entendido (que aí será adequada a sua intenção). Evidentemente, a noção de “adequado” varia de pessoa para pessoa, de grupo social para grupo social, de uma cultura para outra, de determinada intencionalidade para outra.

É importante reconhecer essas questões para entender, por exemplo, que os compositores de funk ou rap das periferias pobres e marginalizadas fazem absoluta questão de compor suas letras sem se preocupar se serão aceitas ou não pelas classes privilegiadas da sociedade, pelas “pessoas de bem” e pelas noções de “bom gosto” que elas impõem, ou tentam impor, às outras classes sociais. Isso, para eles, é mais do que simplesmente “adequado”: é uma arma de luta contra os terríveis preconceitos sociais que pesam sobre a imensa maioria da população. Portanto, “adequar-se” não significa obrigatoriamente satisfazer as expectativas das camadas dominantes, que ditam as regras e as normas, que querem impor o seu modo de vida e a sua vida de mundo ao resto da sociedade. Pode significar precisamente o contrário.
Como sempre, tudo vai depender de quem diz o quê, a quem, como, quando, onde, por que e visando qual efeito. Essas condições de produção nas quais a língua se instala é o que o estudante da língua portuguesa deve ter consciência. Não é impondo-lhe determinada padronização ou censurando-lhe a voz, que ele aprenderá algo, pelo contrário, ele estará internalizando preconceitos quanto a sua classe, sua cor, sua capacidade, sendo excluído e calado.
Referência consultada: BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 54. ed. São Paulo: Loyola, 2011.
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